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“Master do Paraguai”: crise no Ueno Bank leva Peña à renúncia e expõe fragilidade política

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A crise do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, deixou de ser apenas um problema financeiro e se transformou em uma crise de governo. O presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), depois que o colapso da instituição atingiu milhões de correntistas, abriu investigações sobre recursos públicos e provocou uma ruptura dentro do próprio Partido Colorado, legenda que sustentava seu governo.

Apelidado de “Master do Paraguai” em parte do debate público pela comparação com o caso brasileiro, o episódio envolve uma instituição que cresceu rapidamente nos últimos anos e chegou a atender cerca de 3 milhões de clientes, número equivalente a uma parcela expressiva da população adulta do país. O Ueno também administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, o que ampliou o impacto econômico e político da intervenção.

O Banco Central do Paraguai iniciou o processo de resolução da instituição depois de constatar que o índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo regulatório exigido. A autoridade monetária também apontou problemas na qualidade dos ativos, falhas de documentação e operações de crédito com empresas ligadas ao grupo controlador.

A quebra provocou bloqueios e dificuldades de acesso a depósitos, pagamentos e benefícios. O episódio levou correntistas às ruas de Assunção e aumentou a pressão sobre o governo para garantir a devolução dos recursos. Segundo a Associated Press, o fundo estatal de garantia deverá cobrir integralmente cerca de 97% dos depositantes, enquanto o impacto econômico da crise pode alcançar aproximadamente 7 mil empregos.

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O banco foi o estopim; a política decidiu o destino de Peña

A crise financeira, sozinha, não explica completamente a queda do presidente.

Peña havia sido acionista de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez, antigo controlador do Ueno, até março de 2025. O próprio presidente reconheceu a participação, mas afirmou ter vendido seus ativos antes do colapso e negou qualquer irregularidade ou interferência na supervisão bancária.

Outro elo sensível era Carlos Carvallo, presidente do Banco Central até esta semana e ex-presidente-executivo do Ueno. Carvallo deixou o comando da autoridade monetária após o agravamento da crise. O Banco Central afirma que ele se declarou impedido de participar das decisões envolvendo a instituição da qual havia feito parte.

Essas relações alimentaram acusações de conflito de interesses e questionamentos sobre a fiscalização do banco. Procuradores abriram investigações sobre a supervisão da instituição, seu colapso e o uso de depósitos públicos, enquanto executivos e pessoas ligadas ao Ueno passaram a ser investigados judicialmente. Peña nega ter participado de irregularidades.

O ponto de virada, porém, ocorreu dentro da política.

O Partido Colorado, força dominante do Paraguai e legenda do próprio presidente, decidiu apoiar o processo de impeachment. A retirada de apoio deixou Peña politicamente isolado e transformou uma crise bancária em uma ameaça concreta à continuidade de seu mandato.

A ruptura foi especialmente significativa porque Peña construiu sua trajetória política com o apoio do ex-presidente Horacio Cartes, uma das figuras mais influentes do partido. Quando setores colorados passaram a defender sua saída, o presidente perdeu a principal estrutura de sustentação parlamentar de seu governo.

Por isso, atribuir sua queda exclusivamente ao Ueno Bank simplifica demais a crise. O banco abriu a ferida; a perda de apoio dentro do Partido Colorado tornou a permanência no poder praticamente inviável.

Ascensão rápida também levanta debate sobre fiscalização

O caso chama atenção ainda pela velocidade de crescimento do Ueno.

Dados divulgados pela própria instituição mostram que o número de clientes passou de 2,16 milhões em 2024 para quase 2,94 milhões em junho de 2026. No mesmo período, depósitos e carteira de crédito cresceram de forma acelerada.

Em junho deste ano, os indicadores públicos apresentados pelo banco ainda mostravam solvência acima dos limites exigidos. Meses depois, porém, uma revisão promovida pelo regulador identificou ajustes que colocaram a instituição abaixo de 50% do patamar mínimo. A diferença entre os números divulgados anteriormente e a situação encontrada pelo Banco Central passou a alimentar questionamentos sobre governança, qualidade das informações financeiras e capacidade de fiscalização.

Esse é um dos aspectos mais relevantes do episódio.

O Ueno não era um banco pequeno à margem do sistema. Era uma instituição digital em rápida expansão, com milhões de clientes, recursos públicos e forte presença no mercado. Quando uma fintech alcança esse tamanho, deixa de representar apenas uma história de inovação financeira e passa a exigir mecanismos de supervisão compatíveis com sua relevância sistêmica.

A crise mostra que crescimento, tecnologia e facilidade de acesso não substituem elementos básicos do mercado bancário: capital suficiente, transparência, controle de riscos e independência regulatória.

Reflexos ultrapassam os correntistas

Os efeitos chegaram rapidamente aos mercados. Após o agravamento da crise política, títulos paraguaios perderam valor e o guarani chegou a recuar quase 5% diante do dólar. O Banco Central e instituições privadas sustentam que os problemas estão concentrados no Ueno e que não há evidências de uma crise bancária generalizada.

Mesmo assim, o dano institucional é relevante.

Nos últimos anos, o Paraguai buscou se posicionar como destino competitivo para investimentos estrangeiros, beneficiado por custos menores, estabilidade macroeconômica e proximidade com mercados como o Brasil. Um episódio que mistura banco, recursos públicos, reguladores e lideranças políticas atinge diretamente um dos ativos mais importantes para qualquer economia: confiança.

A sucessão política também permanece sensível. A renúncia de Peña depende de tratamento institucional pelo Congresso, e o processo de impeachment avançou paralelamente. A Câmara chegou a rejeitar a saída imediata e aprovou o prosseguimento do julgamento político, mantendo o caso aberto no Legislativo.

 

O desfecho do governo, portanto, não apaga as perguntas que permanecem.

Como um banco com milhões de clientes chegou a uma situação de insolvência tão rapidamente? Como operações com empresas relacionadas passaram pelos mecanismos de controle? Qual foi a real extensão da exposição de recursos públicos? E até que ponto as relações entre autoridades, reguladores e o grupo controlador influenciaram o ambiente de supervisão?

Essas questões fazem do Ueno Bank mais do que uma crise financeira.

O episódio expõe a ligação entre governança empresarial, fiscalização estatal e estabilidade política e mostra como a quebra de confiança em uma instituição privada pode alcançar o centro do poder quando dinheiro público, interesses empresariais e relações políticas passam a ocupar o mesmo espaço.

No Paraguai, o banco foi o gatilho. A crise de governabilidade fez o restante.

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