
Festas, brindes e campanhas motivacionais podem fazer parte da rotina de uma empresa, mas não substituem uma relação de confiança com os funcionários. Durante sua participação no Minuto Micheletto, o publicitário André Logelo, especialista em comunicação interna e endomarketing, defendeu que o envolvimento das equipes depende de ações que façam sentido no cotidiano de trabalho.
Na entrevista ao jornalista Eduardo Micheletto, o convidado abordou retenção de talentos, cultura organizacional e as mudanças nas expectativas dos profissionais. Também apresentou reflexões de sua pesquisa de mestrado sobre presenteísmo, discutido na conversa como uma situação em que a pessoa comparece ao trabalho, mas enfrenta dificuldades para se envolver nas atividades.
Para Logelo, a comunicação precisa ajudar o funcionário a compreender seu papel, conhecer as possibilidades de desenvolvimento e encontrar espaço para ser ouvido.
“A comunicação é o simples ato de conectar”, afirmou. Essa conexão, em sua avaliação, deve alcançar também quem participa da construção dos resultados dentro da empresa.
“É ouvir também”: comunicação interna exige diálogo
Um dos pontos centrais da entrevista foi a diferença entre divulgar avisos e construir uma comunicação interna que permita a troca de informações.
Segundo Logelo, informar sobre pagamentos, benefícios ou campanhas é parte do trabalho, mas não esgota a relação com as equipes. É necessário compreender como as mensagens são recebidas e quais dificuldades os funcionários encontram.
“Não é só falar que hoje caiu o vale, não é só botar anúncio no mural”, declarou. “É ouvir também.”
O especialista destacou a pesquisa de clima organizacional como um ponto de partida para identificar problemas e orientar ações. Para que esse diagnóstico tenha utilidade, afirmou, a liderança precisa estar disposta a receber críticas e rever práticas.
“O gestor tem que estar despido de vaidade para escutar que às vezes ele pode estar errado.”
Na avaliação do convidado, a escuta permite reconhecer situações que nem sempre chegam às reuniões de gestão, mas influenciam a confiança e o relacionamento entre os profissionais.
“O propósito da empresa tem que estar claro”
Logelo também questionou a distância entre os valores apresentados pelas empresas e aquilo que os funcionários conhecem ou vivenciam.
Durante a conversa, propôs uma reflexão: quantas pessoas conseguiriam explicar os valores da organização em que trabalham? Para ele, a resposta ajuda a perceber se esses princípios fazem parte da cultura ou permanecem restritos a uma apresentação institucional.
“O propósito da empresa tem que estar claro, tem que estar para todo mundo”, afirmou.
Segundo o publicitário, essa compreensão passa pela maneira como a empresa apresenta seus objetivos, explica decisões e reconhece a participação das equipes. O profissional precisa entender como sua atividade contribui para o resultado e quais perspectivas existem para seu desenvolvimento.
Na leitura de Logelo, o vínculo se fortalece quando o crescimento do negócio pode ser associado a oportunidades concretas para quem trabalha nele.
“Não é só o dinheiro que conquista e retém”
A retenção de talentos foi outro tema da entrevista ao Minuto Micheletto. Para Logelo, a remuneração tem importância, mas a decisão de permanecer em uma empresa também envolve reconhecimento, respeito e perspectivas de carreira.
“Não é só o dinheiro que conquista e retém”, declarou.
O especialista defendeu que as organizações expliquem o que esperam dos profissionais e quais caminhos de desenvolvimento podem oferecer. Sem essa clareza, afirmou, o funcionário pode ter dificuldade para enxergar um futuro naquele ambiente.
Ao comentar a rotatividade e as expectativas dos jovens, o convidado relacionou parte desse desafio à falta de alinhamento entre empresa e trabalhador. Em sua avaliação, compreender a jornada de crescimento ajuda a dar sentido às etapas de aprendizado.
Esse compromisso, porém, exige estrutura. Planos de carreira, treinamento e critérios de evolução precisam sustentar a mensagem transmitida pelas lideranças.
“Ele está ali, mas não está conectado com a empresa”
Ao apresentar sua trajetória acadêmica, Logelo contou que dedicou três anos de pesquisa à relação entre endomarketing e presenteísmo. Segundo relatou, o trabalho envolveu entrevistas com representantes de dez empresas de diferentes tamanhos.
Na conversa, descreveu situações em que o profissional comparece ao trabalho, mas enfrenta preocupações ou condições que dificultam sua participação nas atividades.
“A pessoa está ali, mas ela não está conectada com a empresa”, afirmou.
O convidado citou insegurança sobre a continuidade do emprego, dúvidas sobre a avaliação da liderança e problemas pessoais como exemplos discutidos em sua investigação. Os relatos foram apresentados como parte da pesquisa, sem representar um retrato de todas as empresas.
Para Logelo, a comunicação pode contribuir ao esclarecer expectativas e tornar conhecidos os canais de apoio disponíveis. O ponto central, em sua avaliação, é que o funcionário saiba como a organização lida com dificuldades e onde pode buscar orientação.
A pesquisa também influenciou sua atuação profissional. Segundo contou, o estudo ajudou a reformular o foco de sua empresa em direção à comunicação interna e ao endomarketing.
“O que você pode esperar dela”: integração começa na entrada
O processo de entrada de um funcionário, conhecido como onboarding, foi apresentado pelo especialista como uma oportunidade para estabelecer uma relação mais clara desde o início.
Logelo explicou que essa etapa deve apresentar a organização, as regras de trabalho, as responsabilidades da função e as possibilidades de desenvolvimento.
“É o momento onde você entra na empresa em que a empresa te apresenta quem ela é, o que ela espera de você, o que você pode esperar dela”, afirmou.
Para o convidado, conhecer apenas a própria tarefa pode ser insuficiente. Entender como o trabalho se conecta ao dos colegas e ao produto ou serviço final ajuda o profissional a reconhecer sua contribuição.
A mesma atenção, segundo ele, deve alcançar o desligamento. A conversa de saída permite compreender motivos, esclarecer decisões e identificar pontos que podem ser melhorados na gestão.
“Sem um ser humano por trás não é nada”
A inteligência artificial também entrou no debate sobre valorização profissional. Ao comentar o entusiasmo com novas ferramentas, Logelo destacou a participação das pessoas na operação e no uso da tecnologia.
“Sem um ser humano por trás não é nada. A coisa não funciona”, afirmou.
Em sua avaliação, investir em equipamentos e sistemas precisa caminhar junto com a preparação e a valorização de quem trabalha com esses recursos.
O convidado relacionou essa discussão à retenção de talentos: profissionais que conhecem processos e compreendem os objetivos do negócio representam uma parte importante da capacidade de adaptação da empresa.
Para ele, o reconhecimento deve alcançar diferentes funções, considerando a contribuição de cada pessoa para o funcionamento da organização.
“Isso tem que ser verdadeiro”
Ao longo da entrevista, André Logelo defendeu a coerência entre a imagem que uma marca apresenta ao público e a experiência de quem trabalha nela.
Segundo o especialista, discursos sobre propósito e valorização das pessoas precisam aparecer nas decisões e nas relações cotidianas. Benefícios visíveis e ações pontuais, isoladamente, não demonstram como uma organização trata suas equipes.
“Isso tem que ser verdadeiro”, ressaltou.
Na avaliação apresentada no Minuto Micheletto, o endomarketing ganha força quando encontra apoio em práticas de gestão: ouvir os funcionários, explicar os rumos da empresa, reconhecer contribuições e oferecer condições para o desenvolvimento profissional.
É nessa relação diária, afirmou o convidado, que a comunicação deixa de ser apenas uma mensagem e passa a construir vínculos.
A entrevista completa está disponível no canal Minuto Micheletto no YouTube.




