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Eleições 2026 consolidam redes sociais e influenciadores no centro da comunicação política

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A eleição de 2026 deixou uma mensagem clara para quem trabalha com comunicação política: as redes sociais deixaram de ser apenas mais um canal de campanha e passaram a integrar a própria estrutura das disputas eleitorais.

Vídeos curtos, influenciadores, WhatsApp, inteligência artificial, memes, transmissões ao vivo e comunidades digitais foram utilizados por candidatos de diferentes campos políticos para ampliar alcance, mobilizar apoiadores e disputar diariamente a atenção do eleitor.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação.

No Brasil, existem mais de 10 milhões de influenciadores com pelo menos mil seguidores no Instagram, segundo levantamento da Nielsen citado pelo Senado Federal. O país aparece atrás apenas dos Estados Unidos nesse mercado.

Na política, a relação entre presença digital e desempenho eleitoral ganhou novos exemplos em 2026.

Nikolas Ferreira foi reeleito deputado federal por Minas Gerais com 3.119.318 votos, 27,19% dos votos válidos no estado, tornando-se o deputado federal mais votado do país.

No Instagram, sua audiência já ultrapassa 26 milhões de seguidores.

Augusto Cury conseguiu adicionar cerca de 2,5 milhões de seguidores ao Instagram em apenas duas semanas durante a campanha presidencial e chegou a 11% em uma pesquisa naquele período, enquanto uma série de influenciadores passou a produzir conteúdos favoráveis à sua candidatura.

Romeu Zema, por sua vez, transformou inteligência artificial, sátira e entretenimento em estratégia eleitoral com a série “Os Intocáveis”, que chegou a pelo menos 11 episódios e depois ganhou outras extensões, como jingles e até um jogo inspirado em Mario Kart.

E, no segundo turno, o canal Exército do Lula, comandado por André Janones no WhatsApp, ultrapassou 10 milhões de seguidores, mostrando a capacidade de organização de uma militância digital em escala nacional.

São estratégias diferentes, mas todas apontam para a mesma direção: comunicação política agora significa construir redes capazes de produzir, distribuir e multiplicar mensagens em tempo real.

A eleição virou uma disputa permanente pela atenção

O modelo tradicional de campanha política era relativamente centralizado.

O candidato fazia comícios, dava entrevistas, aparecia no horário eleitoral e dependia da imprensa e da propaganda para alcançar grande parte dos eleitores.

Essa estrutura continua existindo.

Mas agora convive com outro ecossistema.

Uma fala realizada pela manhã pode virar corte de vídeo minutos depois, ser compartilhada por influenciadores durante a tarde, circular em grupos de WhatsApp à noite e terminar o dia entre os assuntos mais comentados das redes.

Nas três semanas entre os dois turnos, Lula e Flávio Bolsonaro intensificaram justamente esse tipo de atuação, aumentando a presença no WhatsApp, redes sociais, imprensa e mobilizações presenciais.

O eleitor passou a ser não apenas destinatário da comunicação, mas também parte da cadeia de distribuição.

Mais seguidores, mais interações e novas formas de influência

Um levantamento da Folha em parceria com a Tubular mostrou a dimensão das audiências políticas na campanha.

No início de outubro, Nikolas Ferreira já liderava entre os candidatos monitorados no Instagram, com cerca de 22,3 milhões de seguidores.

Lula tinha aproximadamente 15,4 milhões e Flávio Bolsonaro, 12,3 milhões.

Entre os candidatos presidenciais, Flávio acumulava mais de 41 milhões de interações no Instagram, Renan Santos cerca de 30 milhões e Lula, aproximadamente 29 milhões.

Lula, porém, liderava em visualizações, superando 655 milhões, segundo o levantamento.

Os números mostram que audiência, visualização e engajamento passaram a ser indicadores cada vez mais importantes para compreender uma campanha.

Mas eles também precisam ser lidos com cautela.

Ter mais seguidores não significa necessariamente converter essa audiência integralmente em votos.

O que as redes oferecem é capacidade de alcance, repetição e mobilização.

Nikolas Ferreira mostra a força do político-influenciador

Poucos casos ilustram tão bem esse fenômeno quanto Nikolas Ferreira.

O deputado terminou a eleição com mais de 3,1 milhões de votos em Minas Gerais.

Em 2022, havia recebido aproximadamente 1,49 milhão.

Ou seja, sua votação mais do que dobrou em quatro anos. Um levantamento comparativo calculou crescimento próximo de 109%.

Ao mesmo tempo, sua presença digital cresceu de forma expressiva.

No Instagram, Nikolas chegou a 26 milhões de seguidores em 26 de outubro, segundo monitoramento do HubPolítico.

Em levantamento realizado no período eleitoral, seus perfis somavam cerca de 43,5 milhões de seguidores e inscritos considerando Instagram, TikTok, X, Facebook e YouTube.

Mais importante do que o tamanho da audiência é a intensidade da interação.

Levantamento da FGV Comunicação apontou Nikolas como o parlamentar com maior engajamento entre os deputados federais analisados, com mais de 234 milhões de interações entre janeiro e agosto de 2026.

Deputados com forte atuação digital tiveram alta taxa de reeleição

O mesmo estudo da FGV ajuda a ampliar a análise.

Entre os 43 deputados federais com maior engajamento nas redes sociais, 37 foram reeleitos.

Isso representa uma taxa de aproximadamente 88%.

Entre parlamentares de atuação considerada mais tradicional no levantamento, a taxa ficou pouco acima de 60%.

Esse dado não prova que as redes sociais, isoladamente, causaram a reeleição.

Diversos fatores influenciam uma votação.

Mas mostra que candidatos capazes de manter presença digital intensa também apresentaram elevado desempenho eleitoral naquele grupo estudado.

Um vídeo de Nikolas ultrapassou 100 milhões de visualizações em horas

A capacidade de viralização também atingiu números pouco usuais.

Durante a reta final da eleição presidencial, um vídeo publicado por Nikolas no Instagram chegou a 103,2 milhões de visualizações em nove horas e posteriormente ultrapassou 160 milhões.

O alcance foi tão elevado que o TSE pediu esclarecimentos à Meta sobre a origem e a distribuição dessas visualizações, após questionamento apresentado pela campanha de Lula.

A empresa afirmou que seu sistema privilegia engajamento e negou favorecimento político.

Independentemente da disputa judicial, o episódio mostra a escala que um único conteúdo político pode atingir nas plataformas digitais.

Case Augusto Cury: influenciadores ampliam uma candidatura

A campanha de Augusto Cury oferece outro exemplo interessante.

Em agosto, uma série de influenciadores começou a publicar vídeos de apoio ao candidato presidencial do Avante.

Em duas semanas, entre 16 e 29 de agosto, Cury ganhou aproximadamente 2,5 milhões de seguidores no Instagram.

No mesmo período comparado pela Folha, Flávio Bolsonaro acrescentou cerca de 280 mil seguidores, Renan Santos 158 mil e Lula aproximadamente 100 mil.

O movimento chamou atenção porque o crescimento digital aconteceu ao mesmo tempo em que Cury avançava em pesquisas.

Um levantamento BTG/Nexus chegou a registrá-lo com 11% das intenções de voto naquele momento.

Não é possível afirmar que o crescimento nas pesquisas ocorreu apenas por causa dos influenciadores.

Mas a campanha conseguiu ampliar rapidamente sua visibilidade digital.

Vídeo de Cury passou de 20 milhões de visualizações

Depois do debate da Band, a campanha intensificou essa estratégia.

Um vídeo com a fala final de Augusto Cury recebeu aproximadamente R$ 15 mil em impulsionamento e ultrapassou 20 milhões de visualizações, tornando-se um dos conteúdos de maior alcance do candidato naquele período.

Outros conteúdos impulsionados alcançaram mais de um milhão de pessoas cada.

Levantamento baseado na biblioteca de anúncios da Meta indicou ainda que Cury gastou pelo menos R$ 116 mil em impulsionamento de conteúdos em plataformas da empresa durante 2026.

O caso mostra uma combinação que deverá aparecer com cada vez mais frequência:

influenciadores + mídia paga + conteúdo nativo de redes + mobilização espontânea.

Influenciadores funcionam como atalhos para comunidades

A vantagem estratégica de um influenciador não está apenas na quantidade de seguidores.

Está também na relação construída com uma comunidade.

Um criador ligado a educação fala com determinado público.

Outro ligado a empreendedorismo alcança uma comunidade diferente.

Existem influenciadores religiosos, esportivos, culturais, de entretenimento, tecnologia e comportamento.

Em uma campanha, essas pessoas podem funcionar como pontes entre candidatos e segmentos aos quais a comunicação política tradicional dificilmente chegaria com a mesma naturalidade.

Por isso, o fenômeno observado na campanha de Cury merece atenção.

Case Zema: política encontra entretenimento e inteligência artificial

Romeu Zema adotou outra estratégia.

Sua campanha criou uma série de vídeos chamada “Os Intocáveis”, utilizando personagens e fantoches produzidos com inteligência artificial para satirizar integrantes da política e do Judiciário.

A série chegou a pelo menos 11 episódios até o início de setembro.

Em vez de produzir apenas discursos tradicionais, a campanha transformou críticas políticas em conteúdo seriado.

O formato aproximava-se mais de entretenimento digital do que de propaganda política convencional.

Série virou jingle e até jogo eletrônico

A estratégia não ficou restrita aos episódios.

A campanha também criou o “ABC dos Intocáveis”, uma paródia musical produzida com inteligência artificial.

Depois lançou o game “Corrida Chega de Intocáveis”, inspirado em Mario Kart, com personagens ligados ao cenário político brasileiro.

O caso é relevante porque mostra a chamada gamificação da comunicação política.

A mensagem deixa de ser apenas assistida.

O usuário pode interagir com ela.

IA reduziu a barreira para produzir formatos complexos

A campanha de Zema também demonstra outra mudança.

Ferramentas de inteligência artificial estão tornando possível produzir animações, músicas, personagens, jogos e peças audiovisuais em escala e velocidade muito maiores.

Isso cria oportunidades criativas.

Ao mesmo tempo, aumenta os desafios relacionados a manipulação, desinformação, direitos de imagem e limites jurídicos da propaganda eleitoral.

Algumas peças da campanha de Zema chegaram a ser questionadas judicialmente, e o TSE determinou a retirada de um vídeo que, segundo decisão da Corte, ultrapassava os limites da crítica política e sugeria práticas criminosas.

Ou seja, inovação também exige responsabilidade.

Exército do Lula mostra força das comunidades digitais

No segundo turno, outro fenômeno chamou atenção.

O canal Exército do Lula, administrado por André Janones, chegou a 10 milhões de seguidores no WhatsApp em 23 de outubro.

Poucos dias antes, em 20 de outubro, possuía cerca de 6,5 milhões.

No início do segundo turno, havia ultrapassado 2 milhões.

Em pouco mais de duas semanas, portanto, o canal registrou crescimento de vários milhões de integrantes.

Seguidores recebiam “missões”

O diferencial não estava apenas no número.

Janones utilizava o canal para distribuir tarefas.

Entre elas estavam:

  • compartilhar vídeos;
  • comentar publicações;
  • publicar hashtags;
  • fazer buscas no Google;
  • participar de transmissões;
  • mobilizar outras pessoas.

Ou seja, seguidores eram estimulados a atuar como uma espécie de rede descentralizada de distribuição.

Esse comportamento já aparecia como um dos principais elementos do material original: apoiadores deixaram de simplesmente consumir conteúdos e passaram a ajudar a fazê-los circular.

Engajamento de Lula aumentou durante mobilização

A mudança também apareceu em outros indicadores.

Segundo levantamento da consultoria Datrix citado pelo JOTA, a mediana de interações nas publicações de Lula passou de 2,8 mil para 16,2 mil durante a mobilização do segundo turno.

A partir de 7 de outubro, Lula passou ainda a conquistar aproximadamente 210 mil novos seguidores por dia nas principais redes, contra 136 mil de Flávio Bolsonaro naquele período.

Outro levantamento, do Instituto Democracia em Xeque, contabilizou 23 milhões de interações nos perfis de Janones entre 28 de setembro e 11 de outubro.

São números que ajudam a dimensionar a capacidade de uma rede organizada de comunicação.

Digital não substituiu rua, televisão ou imprensa

Apesar de todo esse crescimento, seria exagero concluir que as redes sociais substituíram os demais meios.

Televisão, debates, entrevistas, imprensa e mobilizações presenciais continuaram tendo importância.

O que mudou foi a integração.

Um debate televisivo gera cortes para Instagram.

Uma entrevista vira meme.

Uma fala em comício chega ao WhatsApp.

Uma notícia publicada por um veículo é utilizada por uma campanha para gerar novos conteúdos.

A comunicação passou a funcionar como um sistema conectado.

Comunicação digital não significa vitória automática

Os próprios exemplos de 2026 mostram isso.

Augusto Cury conseguiu enorme crescimento nas redes, mas não chegou ao segundo turno.

Romeu Zema produziu uma estratégia digital bastante visível, mas também não avançou à etapa final.

Flávio Bolsonaro tinha forte presença digital e terminou derrotado.

Nikolas Ferreira, por outro lado, conseguiu converter uma enorme audiência em votação recorde para deputado federal.

Portanto, não existe uma relação automática entre seguidores e votos.

Comunicação é um dos elementos de uma campanha.

Não é o único.

O que mudou foi o peso estratégico

Mesmo sem garantir vitória, o digital passou a influenciar todas as etapas de uma campanha.

Serve para:

  • apresentar candidatos;
  • construir identidade;
  • responder adversários;
  • distribuir propostas;
  • mobilizar apoiadores;
  • arrecadar recursos;
  • organizar eventos;
  • reagir a crises;
  • monitorar debates;
  • testar mensagens;
  • alcançar segmentos específicos.

Isso significa que comunicação digital deixou de ser departamento acessório.

Passou a integrar estratégia política.

Influenciadores são uma nova camada da comunicação eleitoral

A eleição de 2026 também mostrou que as campanhas não controlam mais integralmente suas próprias mensagens.

Influenciadores, apoiadores e comunidades reinterpretam conteúdos e os redistribuem.

Isso amplia alcance.

Mas também reduz controle.

Uma frase dita por um candidato pode ganhar significado diferente dependendo de quem a compartilha.

Esse ambiente exige campanhas mais preparadas para responder rapidamente e monitorar diferentes comunidades.

O político virou produtor de conteúdo

Nikolas Ferreira talvez seja o exemplo mais evidente dessa mudança.

Ele não utiliza redes sociais apenas como uma assessoria de imprensa digital.

Grande parte de seus conteúdos adota linguagem, ritmo e formatos semelhantes aos dos criadores profissionais.

Vídeos falados diretamente para a câmera.

Ganchos nos primeiros segundos.

Cortes rápidos.

Reações a acontecimentos do dia.

Linguagem simples.

Uso constante de temas com forte capacidade de compartilhamento.

Independentemente da concordância ou discordância com suas posições políticas, o caso ajuda a entender um fenômeno de comunicação: o político contemporâneo também passou a competir como criador de conteúdo.

A eleição de 2026 consolidou esse modelo

Augusto Cury utilizou influenciadores.

Romeu Zema transformou inteligência artificial, humor e gamificação em campanha.

Nikolas Ferreira levou sua audiência digital a uma votação superior a 3 milhões de votos.

André Janones organizou uma comunidade de mais de 10 milhões de pessoas no WhatsApp para apoiar Lula.

Flávio Bolsonaro manteve uma ampla rede de apoiadores e influenciadores digitais.

São estratégias diferentes.

Mas todas compartilham a mesma lógica.

A eleição passou a ser disputada também por atenção, alcance, engajamento e capacidade de transformar audiência em mobilização.

O desafio daqui para frente será transformar audiência em confiança

Depois da eleição, o ambiente muda.

O eleitor deixa de ser convocado diariamente para votar e volta a cobrar resultados.

É nesse momento que comunicação e realidade precisam se encontrar.

Uma estratégia digital pode colocar uma liderança diante de milhões de pessoas.

Pode fazer um vídeo viralizar.

Pode construir uma comunidade.

Pode aumentar seguidores.

Mas não consegue, sozinha, substituir entregas, coerência e credibilidade.

Esse talvez seja o principal aprendizado da eleição de 2026.

A comunicação digital conquistou definitivamente um lugar no centro da política brasileira. Agora, o desafio não é apenas conquistar a atenção das pessoas, mas saber o que fazer com ela.

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