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Afastamentos do trabalho por vício em jogos quintuplicam em três anos no Brasil

Joédson Alves/Agência Brasil
SmartSampa

O crescimento das apostas online no Brasil deixou de produzir efeitos apenas no consumo e no endividamento das famílias e passou a aparecer também nas estatísticas do mercado de trabalho.

O número de brasileiros que receberam benefício por incapacidade temporária relacionado à ludopatia, transtorno associado ao comportamento compulsivo de jogar, passou de 67 casos em 2023 para 361 em 2025, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego.

Em apenas três anos, o total ficou mais de cinco vezes maior.

Os dados consideram benefícios concedidos pelo INSS com o código CID F63.0, relacionado ao jogo patológico, como diagnóstico principal ou secundário. Embora abranjam diferentes formas de jogo, o próprio MTE aponta que, mais recentemente, os registros estão associados sobretudo às apostas eletrônicas, as chamadas bets.

Casos mais que dobraram de 2023 para 2024

A trajetória mostra um crescimento contínuo.

Em 2023, foram 67 trabalhadores afastados.

Em 2024, o número subiu para 157.

Em 2025, chegou a 361.

Isso significa que os afastamentos mais que dobraram entre 2023 e 2024 e voltaram a mais que dobrar no ano seguinte.

Na comparação entre 2023 e 2025, o crescimento foi de aproximadamente 439%.

Ou seja: para cada trabalhador afastado por esse motivo em 2023, havia mais de cinco em 2025.

Homens representam 71% dos trabalhadores afastados

O perfil dos beneficiários também chama atenção.

Entre os trabalhadores com vínculos ativos que receberam o benefício no período analisado:

  • 71% eram homens;
  • 29% eram mulheres.

A faixa etária mais atingida foi a de 30 a 39 anos, responsável por 44,1% dos casos.

Na sequência aparecem:

  • trabalhadores de 40 a 49 anos: 22,8%;
  • jovens de 25 a 29 anos: 17,1%.

Os números mostram concentração justamente entre pessoas em plena idade produtiva.

Serviços concentram mais da metade dos casos

A análise do Ministério do Trabalho também permite observar em quais setores os afastamentos ocorreram com maior frequência.

Entre os trabalhadores com vínculos ativos:

  • 54% atuavam no setor de serviços;
  • 23% na indústria;
  • 20% no comércio;
  • outros setores somaram aproximadamente 2,8%.

A presença proporcional de indústria e comércio também chamou atenção no estudo quando comparada a áreas como agricultura e construção.

Bets ajudaram a transformar o jogo em consumo permanente

O crescimento dos casos ocorre em paralelo à popularização das plataformas de apostas digitais.

O celular reduziu drasticamente a distância entre o usuário e o jogo.

Antes, apostar exigia deslocamento até determinados locais ou acesso a modalidades específicas.

Com as bets, a lógica mudou.

O jogo passou a estar disponível:

  • 24 horas por dia;
  • dentro do celular;
  • integrado a eventos esportivos;
  • associado a publicidade;
  • impulsionado por influenciadores;
  • alimentado por notificações e promoções.

Essa disponibilidade permanente alterou a relação entre usuário e aposta.

Comunicação digital teve papel central na expansão

A popularização das bets também foi um fenômeno de comunicação.

Durante anos, marcas do setor ocuparam espaços em:

  • transmissões esportivas;
  • uniformes de clubes;
  • redes sociais;
  • podcasts;
  • canais de influenciadores;
  • publicidade digital;
  • programas de televisão.

As apostas deixaram de ser apresentadas apenas como jogo.

Passaram a ser incorporadas ao entretenimento e à experiência de acompanhar esportes.

Esse ambiente contribuiu para normalizar o contato frequente com as plataformas.

Vício começa a impactar produtividade e emprego

O afastamento do trabalho é uma consequência particularmente importante porque mostra que o problema ultrapassou a esfera privada.

Quando um trabalhador precisa recorrer ao benefício por incapacidade temporária, existe um impacto para:

  • a pessoa;
  • sua família;
  • a empresa;
  • o sistema previdenciário;
  • o mercado de trabalho.

A ludopatia passa, portanto, a ser também uma questão econômica.

Endividamento pode aprofundar problema

Segundo o Ministério do Trabalho, uma das preocupações está justamente na relação entre jogo compulsivo e endividamento.

A subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho, Paula Montagner, afirma que trabalhadores podem entrar nas apostas buscando uma solução financeira e acabar acumulando dívidas em proporções graves.

Esse ciclo pode aumentar ansiedade, perda de controle financeiro e comprometimento da capacidade de trabalho.

Governo proibiu bets em setembro

O cenário ganhou uma mudança estrutural em setembro de 2026.

A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, proibiu em todo o território nacional a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa.

A proibição abrange:

  • apostas esportivas;
  • jogos online;
  • operações físicas;
  • plataformas virtuais;
  • empresas sediadas no exterior que ofereçam apostas a pessoas localizadas no Brasil.

Sites começaram a sair do ar em outubro

A medida estabeleceu um período de transição.

Desde 25 de setembro, as plataformas ficaram impedidas de receber novos recursos dos apostadores.

Os usuários tiveram até 5 de outubro para solicitar voluntariamente a retirada dos saldos.

A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos destinados às apostas de quota fixa deveriam ficar indisponíveis.

O governo também criou procedimentos para devolução de valores ainda existentes nas contas dos usuários.

Proibição encerrou ciclo iniciado em 2018

As apostas de quota fixa haviam sido legalizadas no Brasil em 2018 para apostas esportivas.

Em 2023, a legislação avançou sobre jogos online e regulamentação do setor.

A partir de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podiam operar nacionalmente, utilizando sites com domínio .bet.br.

Menos de dois anos depois, o modelo foi interrompido pela nova medida provisória.

Dados trabalhistas ajudam a explicar mudança

A proibição ocorreu em meio ao aumento da preocupação com os efeitos sociais do setor.

Os números do MTE oferecem um indicador concreto desse impacto.

O salto de 67 para 361 afastamentos pode parecer pequeno diante do tamanho da população trabalhadora brasileira.

Mas o crescimento acelerado chama atenção.

Além disso, o dado contempla apenas casos que chegaram ao ponto de gerar afastamento previdenciário.

Ele não mede todos os trabalhadores que possuem comportamento problemático relacionado a jogos.

Números podem representar apenas parte do problema

Esse é um ponto importante.

Para entrar nessa estatística, o trabalhador precisa ter recebido benefício por incapacidade temporária e possuir diagnóstico relacionado ao jogo patológico.

Portanto, os dados não representam todos os brasileiros com algum nível de dependência ou dificuldade relacionada às apostas.

Eles mostram os casos em que o problema alcançou gravidade suficiente para interferir diretamente na capacidade laboral.

Saúde mental entra no debate sobre tecnologia

A discussão das bets também amplia o debate sobre responsabilidade das plataformas digitais.

Tecnologia normalmente é associada a inovação, eficiência e conveniência.

Mas produtos digitais também podem ser desenhados para aumentar frequência, permanência e repetição de comportamento.

No caso das apostas, elementos como recompensas, notificações, probabilidades e facilidade de pagamento podem aumentar a intensidade da experiência.

Por isso, inovação também precisa ser analisada pelo impacto que produz sobre o comportamento das pessoas.

Publicidade também passa a ser questionada

A MP de setembro proibiu não apenas a operação das bets, mas também sua publicidade.

Esse detalhe é relevante.

A comunicação foi uma das principais ferramentas de crescimento do setor.

Ao impedir anúncios, patrocínios e promoções de apostas de quota fixa, o governo atinge justamente um dos mecanismos responsáveis pela ampliação do alcance dessas plataformas.

Esporte foi uma das principais portas de entrada

Durante a expansão do mercado, futebol e apostas passaram a ocupar espaços cada vez mais próximos.

Marcas apareciam em camisas, transmissões e conteúdos esportivos.

Isso criou uma associação permanente entre acompanhar uma partida e apostar.

Para públicos jovens e adultos altamente conectados ao esporte, a exposição podia acontecer diariamente.

Problema atinge principalmente adultos em idade produtiva

Os dados do MTE revelam um perfil bastante claro.

Quase metade dos casos está na faixa dos 30 aos 39 anos.

Somando os grupos de 25 a 49 anos, chega-se a uma parcela expressiva dos afastamentos.

São pessoas em uma fase da vida normalmente associada a maior participação no mercado de trabalho, formação de patrimônio e responsabilidades familiares.

O impacto do vício, portanto, tende a se espalhar para além do próprio jogador.

Empresas também precisam observar sinais

O aumento dos afastamentos coloca o tema no radar das organizações.

Problemas relacionados ao jogo podem aparecer no ambiente profissional por meio de:

  • queda de produtividade;
  • faltas;
  • endividamento;
  • uso excessivo do celular;
  • ansiedade;
  • dificuldade de concentração;
  • conflitos pessoais.

Isso não significa que empresas devam diagnosticar trabalhadores.

Mas mostra que políticas de saúde mental e orientação financeira podem ganhar relevância.

Tecnologia pode ampliar acesso, mas também ampliar risco

A história recente das apostas online ajuda a mostrar uma contradição típica da transformação digital.

A tecnologia tornou o serviço mais acessível.

E justamente essa acessibilidade ampliou sua capacidade de gerar danos quando utilizada de maneira compulsiva.

O mesmo celular usado para trabalhar, estudar, conversar e acessar serviços públicos também passou a oferecer apostas a qualquer hora do dia.

Afastamentos são alerta para além do mercado de apostas

O crescimento de mais de cinco vezes em apenas três anos funciona como um sinal de alerta.

A discussão não envolve apenas apostas.

Ela envolve como produtos digitais são projetados, divulgados e utilizados.

Também reforça a necessidade de monitorar os efeitos sociais de novas plataformas antes que problemas ganhem escala.

O desafio agora é medir o efeito da proibição

Com a interrupção das apostas de quota fixa no país, os próximos anos permitirão observar se haverá mudança nos indicadores.

Será importante acompanhar:

  • afastamentos do trabalho;
  • diagnósticos relacionados à ludopatia;
  • endividamento;
  • procura por tratamento;
  • migração para plataformas ilegais;
  • publicidade clandestina.

A proibição encerra a operação legal, mas não elimina automaticamente comportamentos já consolidados.

De 67 para 361: um número que revela uma transformação

Entre 2023 e 2025, os afastamentos relacionados ao jogo patológico passaram de 67 para 361.

Homens representaram 71% dos casos.

A faixa de 30 a 39 anos concentrou 44,1%.

E mais da metade dos trabalhadores atingidos estava no setor de serviços.

Os números mostram que a explosão das apostas digitais produziu consequências que chegaram ao mercado de trabalho.

Mais do que uma discussão sobre entretenimento ou dinheiro, o fenômeno passou a envolver tecnologia, comunicação, saúde mental e produtividade.

E é justamente nessa interseção que está uma das maiores lições deixadas pela expansão das bets no Brasil: uma plataforma digital pode crescer muito rápido — mas seus impactos sociais também.

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