
Já nos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta em que agradece aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, pelo apoio recebido para deixar o Brasil.
No documento, Flávio volta a questionar o resultado da eleição presidencial e afirma, sem apresentar provas, que houve fraude no processo eleitoral.
Em uma primeira versão da carta, o senador chegou a se apresentar como o “verdadeiro presidente eleito do país”. Cerca de meia hora depois, a publicação foi alterada e a expressão substituída por “líder do Brasil”.
A divulgação ocorre três dias depois de Flávio perder o segundo turno para Luiz Inácio Lula da Silva e um dia após deixar o país apesar de uma ordem do Supremo Tribunal Federal que o proibia de viajar ao exterior.
Carta agradece apoio de Trump e Milei
Na mensagem distribuída à imprensa, Flávio agradece diretamente aos governos dos Estados Unidos e da Argentina pelo apoio recebido durante sua saída do Brasil.
O senador chegou aos Estados Unidos na manhã desta quarta-feira acompanhado da mulher e das duas filhas.
A aeronave pousou pouco antes das 10h30, no horário de Brasília, no aeroporto de Opa-Locka, na região de Miami.
O deslocamento passou por três países.
Segundo informações confirmadas pela Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio e a família entraram no território argentino às 22h50 de terça-feira (27) pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú.
Às 23h30, embarcaram em um avião privado com destino a Guayaquil, no Equador, e, de lá, seguiram para os Estados Unidos.
Flávio volta a questionar eleição sem apresentar provas
Na carta, o senador afirma que a eleição presidencial teria sido fraudada e volta a criticar a decisão que prorrogou o horário de votação no segundo turno.
A medida foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, e permitiu que seções que ainda estavam abertas continuassem recebendo eleitores até as 19h.
O ponto importante é que a decisão atendeu pedidos das duas campanhas — tanto do PL quanto do PT.
Mesmo assim, Flávio utiliza o episódio como um dos principais argumentos para contestar o resultado.
Dados oficiais enfraquecem argumento sobre horário estendido
Os números divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral ajudam a dimensionar o episódio.
Segundo o TSE, apenas 34.393 votos foram registrados depois das 17h no segundo turno.
Esse total corresponde a apenas 0,027% de todos os votos depositados no dia.
A maior parte ocorreu logo após o horário inicialmente previsto para o fechamento.
Foram:
- 32.399 votos entre 17h e 18h;
- 1.981 votos entre 18h e 19h;
- apenas 13 votos depois das 19h.
Das mais de 473 mil urnas utilizadas no país, 24.268 permaneceram abertas após as 17h10.
Diferença entre Lula e Flávio passou de 4,4 milhões de votos
A dimensão da diferença eleitoral torna ainda mais relevante a comparação.
Lula terminou o segundo turno com aproximadamente 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,7% dos votos válidos.
Flávio Bolsonaro ficou com cerca de 59,8 milhões, ou 48,2%.
A diferença entre os dois foi superior a 4,4 milhões de votos.
Portanto, os 34,3 mil votos registrados após as 17h representam menos de 1% da distância final entre os candidatos.
Esse dado não sustenta, por si só, a tese de que a extensão do horário teria alterado o resultado da eleição.
Partido de Flávio reconheceu vitória de Lula
Outro elemento que contrasta com a posição adotada pelo senador é o posicionamento de seu próprio partido.
Na segunda-feira (26), o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, divulgou uma nota reconhecendo oficialmente o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O partido afirmou que acompanharia eventuais questionamentos institucionais, mas reconheceu a vitória de Lula.
A nota não reproduziu a tese utilizada por Flávio de que a extensão do horário teria comprometido o resultado.
Flávio chegou a se declarar “presidente eleito”
A primeira versão da carta chamou atenção especialmente pela linguagem utilizada.
Nela, Flávio se apresentava como o “verdadeiro presidente eleito do país”.
A expressão foi removida aproximadamente meia hora depois.
Na nova versão, ele passou a se identificar como “líder do Brasil”.
A alteração ocorreu após a publicação começar a repercutir nas redes sociais e na imprensa.
Trump confirma autorização para entrada
Donald Trump confirmou nesta quarta-feira que os Estados Unidos autorizaram a entrada de Flávio Bolsonaro e de sua família.
Questionado sobre a carta, o presidente norte-americano afirmou que não pretendia se envolver diretamente no episódio.
Trump também voltou a levantar dúvidas sobre a eleição brasileira, sem apresentar evidências.
A declaração acrescenta uma dimensão diplomática ao caso, principalmente porque Flávio atribuiu publicamente parte de sua saída do país ao apoio norte-americano.
Senador descumpriu ordem do STF
A saída de Flávio ocorreu depois de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes.
Na segunda-feira, Moraes determinou que o senador entregasse seus passaportes pessoal e diplomático e ficasse impedido de deixar o Brasil.
A ordem foi expedida após pedido da Polícia Federal no âmbito de investigações criminais em andamento no Supremo.
Flávio não entregou os documentos dentro do prazo e deixou o país no dia seguinte.
A Polícia Federal informou nesta quarta-feira que investiga as circunstâncias da saída.
PF apura como Flávio deixou o território brasileiro
A corporação busca esclarecer como ocorreu o deslocamento entre o Brasil e a Argentina.
Embora o governo argentino tenha confirmado oficialmente a entrada de Flávio e de sua família no país, a Polícia Federal informou não ter localizado registro da passagem por postos migratórios brasileiros.
Esse ponto deverá ser uma das principais questões da investigação.
Flávio é alvo de dois inquéritos
O senador continua sendo investigado em procedimentos que tramitam no Supremo Tribunal Federal.
Um deles envolve suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a plataformas de apostas.
Outro apura o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
As investigações ainda não representam condenação.
O pedido de retenção dos passaportes foi apresentado pela Polícia Federal diante do risco apontado pela corporação de que o senador pudesse deixar o país.
Carta afirma que oposição será comandada dos EUA
Flávio também anunciou que pretende liderar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos.
Na carta, disse que assumirá de fora do país riscos que, segundo ele, parlamentares aliados não poderiam assumir no Brasil.
A declaração indica que o senador pretende transformar sua permanência nos Estados Unidos em uma plataforma política.
Comunicação passa a ser parte central da estratégia
A publicação da carta também mostra que o episódio não é apenas jurídico.
Ele possui uma forte dimensão de comunicação política.
Flávio saiu do Brasil, chegou aos Estados Unidos e, poucas horas depois, divulgou um documento destinado a:
- contestar a eleição;
- construir uma narrativa sobre sua saída;
- reforçar relação com aliados internacionais;
- mobilizar apoiadores;
- reposicionar sua liderança dentro da oposição.
A mudança rápida de “presidente eleito” para “líder do Brasil” também mostra como a comunicação está sendo ajustada em tempo real conforme a repercussão pública.
Narrativa encontra limites nos dados oficiais
A estratégia, porém, entra em confronto com números concretos.
O TSE reconheceu a vitória de Lula.
O próprio PL reconheceu o resultado.
A diferença final passou de 4,4 milhões de votos.
E apenas 34.393 votos foram registrados depois das 17h, horário utilizado por Flávio como um dos principais argumentos para questionar a eleição.
Até o momento, não foram apresentadas evidências públicas capazes de demonstrar fraude eleitoral.
Caso ganha dimensão internacional
A presença de Trump e Milei na carta também amplia o alcance político do episódio.
Flávio não apresenta sua saída apenas como uma decisão individual.
Ele procura inseri-la em uma rede internacional de apoio político.
Esse movimento ocorre no momento em que lideranças e instituições de diferentes países já haviam reconhecido oficialmente a vitória de Lula.
Próximos passos serão jurídicos e políticos
A partir de agora, duas frentes devem caminhar paralelamente.
A primeira é jurídica.
A Polícia Federal deverá investigar como ocorreu a saída do senador do território nacional e quais consequências podem existir pelo descumprimento da ordem judicial.
A segunda é política.
Flávio pretende utilizar sua permanência nos Estados Unidos para continuar exercendo influência sobre a oposição brasileira.
Carta abre novo capítulo após eleição
Três dias depois do segundo turno, a disputa eleitoral continua reverberando fora das urnas.
Flávio Bolsonaro perdeu a eleição, deixou o país apesar da proibição judicial, chegou aos Estados Unidos e divulgou uma carta em que volta a contestar o resultado.
Mas os números oficiais estabelecem um ponto objetivo.
Lula venceu por mais de 4,4 milhões de votos.
E o período de votação estendido, utilizado por Flávio como principal elemento de sua narrativa, contabilizou 34.393 votos — apenas 0,027% do total registrado no segundo turno.
A partir daí, o debate deixa de ser apenas eleitoral.
Passa a envolver Justiça, diplomacia, comunicação política e a estratégia de uma oposição que começa a ser reorganizada também fora do Brasil.




