Os grêmios estudantis da rede municipal de São Paulo vêm ampliando a participação dos alunos nas decisões e nos projetos desenvolvidos dentro das escolas. Atualmente, 633 unidades de Ensino Fundamental e Ensino Médio contam com organizações desse tipo, reunindo cerca de 7,5 mil estudantes em suas diretorias.

Na prática, os alunos participam de reuniões, apresentam demandas, discutem propostas com a direção e ajudam a definir projetos que vão de atividades culturais e esportivas a ações de sustentabilidade, inclusão e melhoria dos espaços escolares.

Entre 2022 e 2025, a Prefeitura destinou R$ 19,6 milhões às iniciativas por meio do Programa de Transferência de Recursos Financeiros (PTRF) – Orçamento Grêmio Estudantil.

Mais do que financiar atividades, o modelo também coloca os estudantes em contato com conceitos como representação, planejamento, prioridades e uso responsável do dinheiro público.

Grêmios funcionam como espaço de representação dos alunos

Na EMEF Maria Lisboa da Silva, em São Mateus, na Zona Leste, o Grêmio Lélia Gonzalez atua como um canal entre os estudantes e a comunidade escolar. “Nós somos a voz dos alunos”, afirma Manuela Ferrara Gonzalez da Silva, de 14 anos, presidente do Grêmio e aluna do 9º ano.

Segundo ela, o papel da organização é representar perfis diferentes de estudantes e criar espaço também para quem costuma participar menos das discussões. “Temos alunos com autismo e com deficiência física. Representamos todos os estudantes. Eles procuram a gente, mesmo os mais tímidos, vêm conversar”, diz.

A participação não fica restrita aos integrantes das diretorias. Assembleias, consultas, comissões e projetos permitem que outros estudantes apresentem ideias e contribuam para a definição das prioridades.

Projetos vão de cultura a dignidade menstrual

As iniciativas organizadas pelos grêmios incluem festivais culturais, apresentações artísticas, campeonatos esportivos, campanhas de prevenção às violências, ações ambientais, jornais escolares e projetos de convivência.

Na EMEF Maria Lisboa da Silva, uma das ações é voltada à dignidade menstrual.

O objetivo é acolher estudantes com dificuldade de acesso a produtos de higiene e ampliar o diálogo sobre o tema dentro da escola. “Bastante gente abraçou a ideia, tanto as meninas quanto os meninos”, conta a vice-presidente do Grêmio, Tália Diogo dos Santos, de 13 anos.

Segundo ela, atividades promovidas pela organização também abriram espaço para perguntas e troca de informações entre os próprios estudantes.

Alunos transformam participação em ações no bairro

Na EMEF Jardim Fontalis, na região do Tremembé, Zona Norte, a atuação dos alunos ultrapassou os limites da escola.

Os estudantes participaram da revitalização de uma praça, implantaram ações de coleta seletiva e produziram uma cartilha com informações sobre canais de atendimento da Prefeitura.

O projeto venceu a terceira edição do Estudantes em Ação.

Como premiação, a escola recebeu R$ 30 mil, o grêmio recebeu R$ 8 mil e 41 alunos participaram de uma visita à sede da Prefeitura.

A experiência mostra como a participação estudantil pode ser utilizada também para aproximar jovens de problemas e soluções relacionados ao território onde vivem.

Estudantes também aprendem a decidir como usar recursos públicos

Os grêmios contam com recursos específicos para colocar parte das ideias em prática.

Entre 2022 e 2025, R$ 19,6 milhões foram destinados às organizações por meio do PTRF – Orçamento Grêmio Estudantil.

O processo começa com a identificação das necessidades e a definição de prioridades pelos próprios estudantes.

A partir disso, é elaborado um plano de ação.

Os recursos podem ser utilizados na aquisição de materiais, bens e serviços relacionados aos projetos aprovados.

A execução financeira fica sob responsabilidade da Associação de Pais e Mestres, enquanto a equipe gestora e o Conselho de Escola acompanham o processo e a prestação de contas.

Educação fiscal começa na prática

O modelo também oferece aos alunos uma experiência concreta de planejamento e responsabilidade financeira.

A professora de informática Jaqueline Marinho de Souza, orientadora do Grêmio da EMEF Maria Lisboa da Silva, destaca que os estudantes aprendem que os recursos possuem finalidade pública. “A verba não pode ser gasta com qualquer coisa, ela tem que ser utilizada com coisas que contribuam com a escola”, explica.

Segundo ela, os gremistas são orientados a identificar necessidades reais antes de definir a utilização do dinheiro. “É importante que eles aprendam o que é o dinheiro público e como ele tem que ser bem gasto.”

Comunicação e liderança também fazem parte do aprendizado

A participação nos grêmios também desenvolve habilidades que ultrapassam os projetos escolares.

Isabella Dias Soares, de 12 anos, afirma que percebeu mudanças na própria comunicação desde que passou a integrar a organização. “Não existe Grêmio sem comunicação, então aprendi a me expressar e a me comunicar melhor com todo mundo”, afirma.

Já Gabriel Barbosa Ferreira, de 14 anos, destaca o aprendizado relacionado à iniciativa e à execução de projetos. “Eu não posso só querer alguma coisa, eu preciso correr atrás”, diz.

Essas experiências aproximam a atuação dos grêmios de competências como liderança, trabalho em equipe, negociação e comunicação.

Participação estudantil começa cada vez mais cedo

A Secretaria Municipal de Educação também mantém ações e parcerias voltadas à participação dos estudantes.

Entre elas estão iniciativas relacionadas a cidadania, governo aberto, educação fiscal, saúde e desenvolvimento de projetos.

Em 2026, a rede lançou o documento “Conselho e Grêmio Mirim na Educação Infantil”, voltado à ampliação da participação das crianças na construção da vida coletiva desde os primeiros anos escolares.

A proposta é criar, ao longo da trajetória educacional, oportunidades para que os alunos aprendam a ouvir, propor, decidir e agir em conjunto.

Grêmios transformam escola em espaço de participação

A presença de 633 organizações estudantis mostra que os grêmios vêm assumindo um papel que vai além da realização de eventos.

Ao permitir que estudantes discutam problemas, escolham prioridades, administrem projetos e acompanhem a utilização de recursos, essas organizações funcionam também como espaços de formação cidadã.

Para a escola, o impacto aparece na criação de projetos mais conectados às demandas dos próprios alunos.

Para os estudantes, a experiência oferece contato direto com participação, representação, liderança e responsabilidade — habilidades que podem continuar sendo utilizadas muito depois da vida escolar.

Previous articleSão Paulo chega a 2 mil ônibus elétricos e evita consumo de 70 milhões de litros de diesel por ano
Next articleDez vereadores de São Paulo são eleitos deputados e redesenham representação política da capital