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Quase 90% dos conteúdos virais de saúde checados pela Lupa eram falsos

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Promessas de cura, estudos científicos apresentados fora de contexto, falsas autoridades médicas e mensagens construídas para provocar medo estão entre as estratégias mais comuns utilizadas na disseminação de desinformação sobre saúde na internet.

Um levantamento da Agência Lupa classificou como falsos 667 dos 764 conteúdos virais analisados entre março de 2017 e junho de 2026, o equivalente a 87,3% da amostra.

O dado faz parte do relatório Raio-X da Desinformação em Saúde, desenvolvido pela agência com apoio do grupo de educação médica Afya.

O levantamento reúne mais de nove anos de verificações e ajuda a mostrar como conteúdos relacionados à saúde são estruturados para ganhar credibilidade, alcance e capacidade de convencimento nas redes sociais e aplicativos de mensagens.

Percentual não representa toda a internet

Um ponto importante na interpretação do levantamento é entender o universo analisado.

O índice de 87,3% corresponde aos conteúdos virais que chegaram ao processo de checagem da Lupa.

Isso não significa que quase 90% de todas as informações de saúde publicadas na internet sejam falsas.

A amostra é formada por materiais selecionados para verificação justamente porque apresentavam características que justificavam uma análise mais detalhada.

Essa diferença é fundamental para evitar que o próprio estudo seja transformado em uma informação distorcida.

Falsa autoridade médica foi a estratégia mais frequente

A estratégia mais identificada no levantamento foi o uso indevido da imagem, da linguagem ou da autoridade de médicos, pesquisadores e instituições científicas.

Esse recurso apareceu em 21,6% dos casos de desinformação analisados.

Na prática, uma informação falsa pode ser apresentada acompanhada do nome de um profissional, de uma fotografia, de termos técnicos ou de referências a instituições conhecidas para adquirir aparência de credibilidade.

A fundadora da Lupa, Cristina Tardáguila, destacou que esse mecanismo torna a desinformação em saúde particularmente difícil de identificar.

“Um dos maiores desafios da desinformação em saúde é que ela se apropria da linguagem e da autoridade de médicos, pesquisadores e instituições para parecer legítima”, afirmou.

Medo e linguagem alarmista também aparecem com frequência

Outra estratégia recorrente é explorar o medo.

Mensagens alarmistas foram identificadas em 17% dos conteúdos analisados.

Esse tipo de publicação costuma utilizar palavras de impacto, ameaças imediatas ou afirmações categóricas para estimular compartilhamentos antes que o leitor tenha tempo de verificar a informação.

Em temas relacionados à saúde, esse recurso pode ser especialmente eficaz porque envolve medo de doenças, preocupação com familiares, tratamentos e riscos à própria vida.

Quanto maior a sensação de urgência, maior a possibilidade de o usuário compartilhar a mensagem sem verificar sua procedência.

Estudos e dados são distorcidos para sustentar alegações

A distorção de estudos científicos e dados apareceu em 15,7% dos casos analisados.

Nesse tipo de estratégia, uma informação pode até partir de uma pesquisa real, mas suas conclusões são ampliadas, retiradas de contexto ou apresentadas de maneira diferente do que o estudo efetivamente demonstrou.

Também é comum utilizar dados incompletos para sustentar conclusões que não seriam possíveis a partir das evidências apresentadas.

Esse formato é particularmente difícil de combater porque o conteúdo mantém elementos de aparência científica.

Soluções simples para problemas complexos

O relatório identificou ainda a apresentação de soluções simples para problemas complexos em 12,6% dos conteúdos.

Esse tipo de narrativa costuma aparecer em mensagens que prometem cura rápida, prevenção absoluta ou tratamentos considerados revolucionários.

Problemas médicos complexos, no entanto, normalmente dependem de diagnóstico, contexto clínico, avaliação profissional e diferentes possibilidades de tratamento.

A promessa de uma solução universal pode funcionar como ferramenta poderosa de engajamento justamente por oferecer uma resposta simples a situações que normalmente envolvem incerteza.

Pandemia ampliou volume de desinformação checada

A pandemia de covid-19 representou um ponto de inflexão no volume de conteúdos de saúde analisados.

Em 2020 e 2021, a Agência Lupa verificou 452 conteúdos virais relacionados à saúde.

O volume foi aproximadamente dez vezes maior do que o registrado nos três anos anteriores.

Segundo o relatório, estratégias como falsas autoridades, curas milagrosas e distorções de estudos já eram utilizadas antes da pandemia.

A crise sanitária, entretanto, ampliou significativamente a circulação desse tipo de conteúdo.

Covid-19 concentrou 61% das checagens

Ao longo de todo o período analisado, conteúdos relacionados à covid-19 estiveram presentes em 61% das verificações de saúde.

Temas envolvendo tratamentos, cura e prevenção apareceram em 34%, enquanto conteúdos relacionados a alimentos, bebidas e nutrição estiveram presentes em 24%.

Esses percentuais não devem ser somados como categorias independentes.

Um mesmo conteúdo pode tratar simultaneamente de covid-19, tratamento e alimentação, por exemplo.

A sobreposição ajuda a entender como diferentes narrativas podem se combinar dentro de uma mesma publicação.

Profissionais de saúde passam a lidar também com desinformação

Para o vice-presidente Médico e de Relações Institucionais da Afya, Gustavo Meirelles, a expansão desse ambiente digital mudou também o papel do profissional de saúde.

“Hoje, o profissional de saúde precisa estar preparado não apenas para diagnosticar e tratar, mas também para ajudar o paciente a navegar em um ambiente de excesso de informações, muitas delas sem respaldo científico”, afirmou.

Esse desafio se tornou mais evidente com a facilidade de acesso a informações médicas por redes sociais, plataformas de vídeo, aplicativos de mensagens e mecanismos de busca.

O paciente chega muitas vezes à consulta já exposto a diferentes versões sobre doenças, exames ou tratamentos.

Desinformação sobre vacinas continuou depois da pandemia

As vacinas aparecem como um dos temas mais persistentes nas verificações analisadas.

Das 244 alegações relacionadas à vacinação, 212 foram classificadas como falsas.

O percentual corresponde a 86,9% dos conteúdos sobre vacinas selecionados para checagem.

Novamente, isso não significa que 86,9% de tudo o que circula sobre vacinas seja falso.

O índice se refere apenas ao conjunto de alegações que foram verificadas pela agência.

Vacinas ganharam peso durante emergência sanitária

Antes da pandemia, conteúdos relacionados a vacinas representavam 9,1% das checagens de saúde realizadas pela Lupa.

Durante a emergência sanitária, a participação subiu para 33,2%.

Entre 2022 e 2024, chegou a 38,9%.

No período entre 2025 e junho de 2026, houve recuo para 20%.

Mesmo assim, a participação permaneceu acima do dobro do nível registrado antes da pandemia.

Os números indicam que a vacinação continuou ocupando espaço relevante nas verificações de desinformação mesmo depois do período mais crítico da covid-19.

WhatsApp aparece em mais de 70% de um dos recortes

O relatório também analisou as plataformas pelas quais determinados conteúdos circulavam.

Em um recorte de 498 verificações que possuíam informações sobre circulação, mais de 70% envolviam conteúdos encontrados ou compartilhados pelo WhatsApp.

O Facebook apareceu em 126 registros, equivalentes a 25,3%, enquanto o Instagram esteve presente em 35 casos, ou 7%.

Esses dados, entretanto, exigem cuidado na interpretação.

Números não provam que WhatsApp seja origem da desinformação

A presença frequente do WhatsApp no levantamento não permite concluir que o aplicativo seja responsável pela origem da maior parte das informações falsas sobre saúde.

A própria metodologia influencia esse resultado.

A Lupa mantém um canal no aplicativo para receber pedidos de checagem, o que aumenta a possibilidade de identificação de conteúdos que circulam por ali.

Além disso, uma mesma informação pode passar por diferentes plataformas.

Um conteúdo publicado inicialmente em uma rede social pode posteriormente ser enviado pelo WhatsApp, republicado em outra plataforma e continuar circulando de diferentes formas.

Desinformação atravessa plataformas

Esse comportamento mostra uma das principais características da circulação de informações falsas no ambiente digital.

O conteúdo não permanece necessariamente restrito ao local em que foi produzido.

Uma imagem pode começar no Facebook, virar vídeo no Instagram, ser encaminhada pelo WhatsApp e depois reaparecer em outros formatos.

Esse trânsito dificulta determinar a origem exata de determinadas alegações e torna o combate à desinformação um problema que envolve diferentes plataformas simultaneamente.

Figuras públicas são usadas para dar credibilidade

O relatório identificou 142 conteúdos que utilizavam imagens ou referências a pessoas conhecidas.

Entre os nomes citados estavam Jair Bolsonaro, Bill Gates, Drauzio Varella, João Doria e Luiz Inácio Lula da Silva.

A presença de uma personalidade nesses materiais não significa que ela tenha criado, divulgado ou apoiado a informação apresentada.

Em muitos casos, a imagem ou o nome da figura pública é utilizado por terceiros para ampliar a credibilidade ou aumentar o potencial de compartilhamento da publicação.

Reputação pode ser utilizada sem autorização

Esse tipo de estratégia explora o reconhecimento que determinadas pessoas possuem junto ao público.

No caso de médicos, pesquisadores ou comunicadores, a reputação pode fazer com que uma mensagem pareça tecnicamente correta.

Quando envolve políticos ou empresários conhecidos, o objetivo pode ser gerar repercussão ou reforçar uma narrativa específica.

A evolução das ferramentas digitais também aumenta o risco de manipulação de imagens, vídeos e áudios, tornando mais difícil distinguir conteúdos legítimos de materiais adulterados.

Aparência de credibilidade não significa veracidade

O levantamento reforça uma das principais dificuldades enfrentadas por quem consome conteúdo nas redes.

Uma informação pode apresentar aparência profissional, utilizar termos científicos, citar estudos e trazer a imagem de um especialista.

Nenhum desses elementos, isoladamente, comprova sua veracidade.

Da mesma forma, milhares de curtidas, comentários e compartilhamentos indicam alcance, mas não funcionam como evidência de que uma afirmação esteja correta.

A popularidade de uma publicação e sua confiabilidade são características diferentes.

Jornalismo enfrenta desafio de explicar ciência com clareza

A expansão da desinformação em saúde também cria um desafio para o jornalismo.

Informações científicas muitas vezes envolvem incertezas, diferentes níveis de evidência e estudos que precisam ser contextualizados.

Conteúdos falsos, por outro lado, frequentemente apresentam respostas simples e definitivas.

Isso cria uma disputa desigual pela atenção do usuário.

Explicar corretamente um estudo pode exigir vários parágrafos. Uma informação falsa pode resumir a mesma questão em uma frase de impacto.

Plataformas também estão no centro da discussão

O levantamento coloca as plataformas digitais no centro da discussão sobre a circulação de informações de saúde.

Algoritmos, mecanismos de recomendação, encaminhamento de mensagens e formatos de vídeos curtos podem ampliar rapidamente o alcance de determinados conteúdos.

Ao mesmo tempo, redes sociais também são utilizadas por profissionais, instituições científicas e veículos de comunicação para divulgar informação confiável.

O desafio está em criar condições para que o usuário consiga diferenciar autoridade real de autoridade fabricada.

Alfabetização digital se torna ferramenta de saúde pública

A capacidade de avaliar uma informação também passa a ser parte da prevenção.

Antes de compartilhar uma publicação, o usuário pode verificar quem produziu o conteúdo, se há uma fonte identificada, se o estudo citado realmente existe e se instituições reconhecidas confirmam aquela informação.

Outra medida importante é desconfiar de mensagens com promessas absolutas, linguagem excessivamente alarmista ou pedidos urgentes de compartilhamento.

Quanto mais extraordinária a alegação, maior deve ser a atenção com a fonte utilizada para sustentá-la.

Desinformação em saúde pode produzir consequências reais

Informações falsas nessa área não ficam restritas ao ambiente digital.

Elas podem influenciar decisões sobre vacinação, uso de medicamentos, tratamentos, alimentação e procura por atendimento médico.

Uma pessoa convencida por uma falsa promessa de cura pode abandonar um tratamento.

Outra pode utilizar um medicamento sem orientação adequada ou deixar de buscar atendimento diante de sintomas relevantes.

Por isso, a qualidade da informação também se torna uma questão de segurança.

Relatório mostra como a desinformação busca parecer confiável

Mais do que revelar quantos conteúdos foram classificados como falsos, o levantamento da Lupa ajuda a identificar os mecanismos utilizados para tornar essas mensagens convincentes.

Falsa autoridade, medo, distorção de pesquisas e promessas simples aparecem como estratégias recorrentes.

O desafio para jornalistas, profissionais de saúde, plataformas e usuários não é apenas encontrar informações verdadeiras.

É aprender a reconhecer quando uma mensagem utiliza elementos de credibilidade apenas para parecer verdadeira.

Em um ambiente marcado por grande volume de informações e velocidade de compartilhamento, a capacidade de verificar a origem, compreender o contexto e desconfiar de certezas fáceis se torna cada vez mais importante.

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