Home São Paulo & Brasil Transporte e insegurança fazem 4 em cada 10 mulheres desistirem de oportunidades...

Transporte e insegurança fazem 4 em cada 10 mulheres desistirem de oportunidades de trabalho

SmartSampa

Quatro em cada dez mulheres brasileiras já desistiram de uma vaga de emprego ou de uma oportunidade profissional por causa de dificuldades de deslocamento.

O dado faz parte da pesquisa O Direito de Ir, Vir e Viver, realizada pela consultoria Indique, em parceria com a organização Think Eva e a 99.

Segundo o levantamento, 39% das entrevistadas afirmaram já ter aberto mão de uma oportunidade profissional por fatores relacionados à mobilidade, como falta de segurança, custo do transporte, tempo de deslocamento e distância.

O impacto, porém, não se limita ao trabalho. Mais da metade das mulheres ouvidas também relatou ter deixado de participar de compromissos profissionais, atividades educacionais, momentos de lazer ou encontros sociais pelas mesmas razões.

Mais da metade já recusou compromisso de trabalho

A pesquisa mostra que 54% das mulheres já deixaram de comparecer a um compromisso profissional ou recusaram um convite relacionado ao trabalho devido às dificuldades para chegar ao destino.

O problema também atinge a formação.

Cerca de 21% disseram já ter desistido de alguma capacitação, incluindo cursos e faculdade, por obstáculos relacionados ao deslocamento.

Na prática, mobilidade e segurança deixam de ser apenas questões de transporte e passam a interferir diretamente nas possibilidades de crescimento profissional e educacional.

Insegurança é principal obstáculo

Entre os motivos apontados pelas entrevistadas, a insegurança ou violência aparece em primeiro lugar, mencionada por 32% das mulheres.

Na sequência aparecem:

  • falta de dinheiro: 22%;
  • precariedade do transporte público: 15%;
  • distância dos destinos: 14%.

Os números mostram que a decisão de aceitar uma oportunidade de emprego, frequentar uma faculdade ou participar de uma atividade pode depender não apenas da existência da vaga, mas também das condições para chegar até ela.

Mulheres mudam horários e trajetos por medo

A sensação de insegurança modifica a rotina das entrevistadas.

Segundo o levantamento:

  • 87% evitam determinados bairros ou regiões;
  • 73% planejam os horários dos deslocamentos;
  • 63% já deixaram de utilizar algum meio de transporte;
  • 60% alteraram o caminho até o destino por questões de segurança.

Essas adaptações podem aumentar o tempo e o custo da viagem.

Para muitas mulheres, o percurso mais curto nem sempre é considerado o mais seguro.

Assédio está presente nos deslocamentos

A preocupação com violência também aparece nos relatos de assédio sexual.

A pesquisa aponta que 89% das participantes disseram já ter sofrido assédio em pelo menos um tipo de deslocamento.

Os casos foram relatados principalmente em:

  • ônibus: 68,8%;
  • deslocamentos a pé: 60,8%;
  • metrô ou trem: 50,2%.

Bicicletas e motos por aplicativo aparecem com índices menores, mas também foram mencionadas pelas entrevistadas.

Mobilidade pode determinar acesso à universidade

O estudo apresenta relatos que mostram como essas dificuldades interferem em decisões importantes.

Uma das participantes contou que foi aprovada em um curso da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas desistiu da graduação porque não conseguia chegar ao campus em condições consideradas seguras.

Ela relatou ter deixado de utilizar ônibus após sofrer assaltos em diferentes ocasiões.

O caso mostra como problemas de mobilidade podem limitar o acesso a oportunidades mesmo quando outros obstáculos, como aprovação acadêmica, já foram superados.

Carros por aplicativo são utilizados por 80%

Os aplicativos de transporte aparecem como alternativa frequente.

Segundo o levantamento, 80% das mulheres entrevistadas utilizam carros por aplicativo.

O custo, entretanto, pesa mais para moradoras de áreas periféricas ou com menor oferta de transporte público.

Entre essas entrevistadas, 67% consideram os aplicativos uma opção mais cara.

Isso cria outro tipo de restrição: o meio percebido como mais seguro nem sempre é financeiramente acessível.

Maioria não possui carro próprio

A dependência do transporte público e de aplicativos também está relacionada à posse de veículos.

No total, 68% das entrevistadas afirmaram não possuir carro próprio.

Além disso, 52% gastam mais de uma hora por dia em deslocamentos.

Quase metade, 45%, considera que as condições de mobilidade de seu bairro são piores do que as encontradas nas áreas centrais das cidades.

Outros 33% classificam o transporte público de onde vivem como ruim ou péssimo.

Renda determina acesso aos meios de transporte

A pesquisa evidencia diferenças importantes entre mulheres de baixa e alta renda.

Entre as mulheres de menor renda, 80,3% utilizam ônibus regularmente.

Entre aquelas de renda mais alta, o percentual cai para 52,1%.

A diferença é ainda maior no uso de carro próprio.

Entre as mulheres de maior renda, 40,6% utilizam automóvel regularmente. Entre as de baixa renda, são apenas 8,3%.

Os dados mostram que renda e mobilidade estão diretamente relacionadas.

Quanto menor a renda, menor tende a ser a quantidade de alternativas disponíveis.

Trabalho de cuidado aumenta complexidade dos trajetos

Outro fator importante é o trabalho de cuidado.

Segundo a pesquisa, 54% das entrevistadas afirmaram exercer sozinhas responsabilidades relacionadas ao cuidado, enquanto 38% disseram dividir essas tarefas com outras pessoas.

Isso significa que o deslocamento diário de muitas mulheres não segue apenas a rota casa-trabalho.

O percurso pode incluir escola, consulta médica, farmácia, mercado e outros compromissos relacionados a filhos, idosos ou pessoas com deficiência.

Quase metade planeja deslocamento de toda a família

Entre as entrevistadas, 43% afirmaram planejar sozinhas os trajetos relacionados às atividades de cuidado.

Além disso, 44% escolhem o meio de transporte considerando essas responsabilidades.

Quando precisam transportar dependentes, 53% recorrem a carros por aplicativo.

Esses dados ajudam a explicar por que tempo, segurança e disponibilidade de transporte podem pesar ainda mais sobre as mulheres.

Mobilidade afeta também lazer e vida social

Os impactos ultrapassam trabalho e educação.

A pesquisa mostra que 80% das entrevistadas já deixaram de participar de encontros, eventos ou atividades por dificuldades de deslocamento.

Entre elas:

  • 33% deixaram de praticar atividades físicas ou de lazer;
  • 32% deixaram de visitar familiares ou amigos;
  • 69% desistiram de sair à noite.

Isso mostra que mobilidade também influencia acesso à cultura, lazer, convivência e qualidade de vida.

Transporte vira barreira econômica

Quando uma mulher recusa uma oportunidade profissional por não conseguir chegar ao trabalho em condições adequadas, o problema deixa de ser apenas de mobilidade.

Passa a ser também uma questão econômica.

A dificuldade de deslocamento pode reduzir renda, limitar crescimento profissional e restringir acesso a cursos capazes de melhorar a qualificação.

Empresas também podem perder potenciais funcionárias quando vagas estão localizadas em regiões com transporte precário ou consideradas inseguras.

Planejamento urbano interfere no mercado de trabalho

Os resultados mostram que políticas de transporte e planejamento urbano podem ter influência direta sobre a participação feminina no mercado de trabalho.

Iluminação pública, frequência de ônibus, integração entre modais, segurança em pontos e estações e tempo de deslocamento afetam a possibilidade de aceitar ou manter um emprego.

Nesse sentido, políticas de mobilidade também funcionam como políticas de inclusão econômica.

Pesquisa ouviu mulheres de diferentes regiões

A etapa quantitativa do estudo foi realizada entre 8 de junho e 9 de julho de 2026.

Foram entrevistadas 564 mulheres entre 18 e 60 anos, de diferentes faixas de renda e regiões do país.

O levantamento teve foco nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus e Belém, além de outras 73 cidades brasileiras.

Especialistas em planejamento urbano, mobilidade feminina, desigualdades territoriais, periferias e mobilidade ativa também participaram do trabalho.

Direito de ir e vir também é acesso a oportunidades

Os resultados mostram que transporte, segurança e renda formam uma combinação capaz de restringir oportunidades profissionais, educacionais e sociais.

Quando 39% das mulheres relatam já ter desistido de um emprego ou oportunidade por causa do deslocamento, mobilidade deixa de ser apenas uma discussão sobre ônibus, metrôs ou aplicativos.

Ela passa a fazer parte do debate sobre emprego, renda e igualdade de acesso às cidades.

Melhorar as condições de deslocamento pode significar não apenas chegar mais rápido ao destino, mas permitir que mais mulheres tenham condições reais de estudar, trabalhar e participar plenamente da vida econômica e social.

prosangue