Home Comunicação & Mídia Meta veiculou 1,6 mil anúncios político-eleitorais irregulares pagos no exterior, aponta NetLab

Meta veiculou 1,6 mil anúncios político-eleitorais irregulares pagos no exterior, aponta NetLab

Um levantamento do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 1.613 anúncios político-eleitorais impulsionados nas plataformas da Meta a partir do exterior e por atores que, segundo os pesquisadores, não tinham autorização para realizar propaganda eleitoral no Brasil.

Os anúncios circularam no Facebook e no Instagram entre julho e setembro de 2026 e foram veiculados por páginas localizadas principalmente nos Estados Unidos, além de países como Itália, México, Bangladesh e Colômbia.

Segundo o levantamento, 187 anunciantes movimentaram até R$ 2 milhões na veiculação desses conteúdos, que mencionaram 70 candidatos e alcançaram até 171,1 milhões de impressões.

A pesquisa aponta possíveis violações das regras eleitorais brasileiras relacionadas ao impulsionamento de conteúdo por terceiros, financiamento no exterior e ausência de informações transparentes sobre os responsáveis pelos pagamentos.

Anúncios promoviam e atacavam candidatos diferentes

O estudo chama atenção para um aspecto importante: os conteúdos não estavam concentrados exclusivamente na promoção de uma única candidatura.

Segundo o NetLab, as peças promoviam ou atacavam diferentes candidatos e, em alguns casos, apresentavam mensagens contraditórias entre si.

Entre os políticos mencionados na cobertura sobre o levantamento aparecem nomes como Lula, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad.

A presença dos nomes nos anúncios, porém, não significa que as respectivas campanhas tenham contratado, autorizado ou financiado os conteúdos.

Essa distinção é fundamental porque o estudo analisa a origem dos impulsionamentos e o comportamento das redes responsáveis pelos anúncios, e não estabelece automaticamente ligação entre essas estruturas e os candidatos mencionados.

Empresa aparece como principal responsável identificada pelos pagamentos

Entre os responsáveis identificados pelo financiamento, o levantamento apontou a empresa Corporativo Lam, LLC.

Segundo os dados divulgados, a companhia foi associada a 1.076 anúncios e respondeu pela maior parte das peças nas quais foi possível identificar um pagador.

A existência do pagamento, entretanto, não estabelece por si só um vínculo político conclusivo entre a empresa e determinada candidatura.

O estudo também encontrou dificuldades para rastrear parte dos recursos porque uma parcela dos anúncios não apresentava identificação clara da fonte pagadora.

Falhas de transparência dificultam rastreamento

Um dos principais problemas apontados pelo NetLab envolve as ferramentas de transparência da própria Meta.

Segundo o levantamento, parte dos anúncios foi inicialmente veiculada sem a classificação obrigatória de conteúdo político ou eleitoral.

Quando isso ocorre, informações relevantes — como moeda utilizada, responsável pelo pagamento e dados completos de segmentação — podem deixar de aparecer de maneira adequada na biblioteca pública de anúncios.

O NetLab sustenta que essa limitação dificulta o acompanhamento por pesquisadores, autoridades e eleitores.

A transparência desses dados é especialmente relevante durante campanhas eleitorais, quando a publicidade segmentada pode alcançar milhões de usuários sem que todos tenham conhecimento sobre quem financiou a mensagem.

Maior parte das páginas estava fora do Brasil

As páginas responsáveis pela publicidade estavam localizadas predominantemente nos Estados Unidos, segundo a pesquisa.

Também foram identificadas operações associadas a Itália, México, Bangladesh e Colômbia.

O pagamento em moedas estrangeiras tornou-se um dos principais elementos analisados pelos pesquisadores.

A legislação eleitoral brasileira estabelece regras específicas para o impulsionamento de propaganda política e restringe a possibilidade de terceiros financiarem conteúdos eleitorais em benefício de candidaturas.

O fato de uma peça ser paga no exterior, entretanto, precisa ser analisado juntamente com quem realizou o impulsionamento, qual era o conteúdo e qual era a finalidade da publicidade.

Alcance chegou a 171 milhões de impressões

O volume potencial de visualizações também chama atenção.

Os 1.613 anúncios somaram até 171,1 milhões de impressões, segundo as faixas de alcance disponibilizadas pelas plataformas.

Impressões não equivalem ao número de pessoas diferentes atingidas, já que um mesmo usuário pode visualizar determinado conteúdo mais de uma vez.

Ainda assim, o volume mostra a capacidade de escala da publicidade política nas plataformas digitais.

A possibilidade de segmentar mensagens por características demográficas, localização e comportamento torna esse tipo de publicidade uma ferramenta relevante nas estratégias eleitorais contemporâneas.

Pesquisa aponta predominância de ataques

Análises divulgadas a partir do estudo indicam que havia mais conteúdos destinados a atacar candidatos do que a promovê-los.

Esse padrão reforçou a atenção dos pesquisadores para redes que não buscavam necessariamente favorecer uma única candidatura, mas interferir no ambiente do debate eleitoral.

O próprio NetLab afirma que os conteúdos eram por vezes contraditórios, o que dificulta determinar uma estratégia política única por trás de toda a rede analisada.

Por isso, é necessário evitar conclusões automáticas sobre quem teria sido beneficiado ou prejudicado politicamente pelo conjunto das peças.

Meta afirma ter adotado medidas contra conteúdos identificados

A Meta informou que adotou medidas contra anúncios identificados como violadores de suas políticas.

Segundo cobertura sobre o levantamento, a plataforma afirmou ter recategorizado ou removido conteúdos depois que eles foram detectados.

O ponto levantado pelos pesquisadores, porém, é que parte das peças permaneceu ativa antes da intervenção da empresa.

Isso amplia o debate sobre a capacidade das plataformas de detectar previamente anúncios incompatíveis com suas próprias regras ou com a legislação eleitoral.

Problema não ficou restrito ao período anterior à votação

O NetLab também monitorou o comportamento das plataformas durante o primeiro turno das eleições de 2026.

Outro levantamento identificou anúncios considerados irregulares e recomendação de conteúdos de candidatos no próprio dia da votação, período no qual existem restrições específicas à propaganda eleitoral.

Os estudos fazem parte do Observatório das Big Techs, iniciativa criada para acompanhar se grandes plataformas digitais cumprem as obrigações relacionadas ao processo eleitoral brasileiro.

Publicidade digital amplia desafio para fiscalização eleitoral

O episódio evidencia uma dificuldade crescente para a Justiça Eleitoral e para pesquisadores.

Ao contrário da propaganda tradicional, anúncios em redes sociais podem ser criados, segmentados e retirados do ar rapidamente.

Também podem aparecer para públicos muito específicos, o que dificulta que jornalistas, adversários políticos, autoridades ou a sociedade acompanhem todas as mensagens em circulação.

Bibliotecas públicas de publicidade e mecanismos de identificação dos financiadores foram criados justamente para reduzir esse problema.

Quando essas informações são incompletas ou quando anúncios deixam de ser classificados adequadamente como políticos, a fiscalização se torna mais difícil.

Plataformas passam a ocupar posição central nas eleições

A discussão também ultrapassa os anúncios identificados pelo NetLab.

Facebook, Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas se tornaram parte da infraestrutura das campanhas eleitorais.

Além de distribuir conteúdos publicados por candidatos e eleitores, elas decidem quais anúncios podem ser impulsionados, quais públicos podem ser segmentados e quais informações ficam disponíveis para auditoria.

Isso coloca as empresas de tecnologia em uma posição diferente da ocupada pelos antigos veículos de comunicação.

Elas não produzem necessariamente a mensagem política, mas controlam sistemas capazes de distribuir conteúdos para milhões de pessoas com velocidade e segmentação difíceis de reproduzir em outros meios.

Transparência passa a ser elemento central do debate

O levantamento da UFRJ reforça uma discussão que deve continuar após as eleições: quem pagou por uma determinada mensagem política, quanto foi investido, qual público foi atingido e por que aquele anúncio apareceu para determinados usuários.

Sem essas informações, aumenta a dificuldade de identificar financiamento irregular, campanhas coordenadas ou tentativas de influenciar o debate eleitoral sem vinculação transparente a seus responsáveis.

Ao identificar 1.613 anúncios impulsionados a partir do exterior, o estudo coloca novamente em discussão a responsabilidade compartilhada entre anunciantes, plataformas digitais e autoridades eleitorais na fiscalização da propaganda política online.

O desafio será estabelecer mecanismos capazes de oferecer mais transparência sem depender apenas da identificação de irregularidades depois que milhões de visualizações já ocorreram.