O café ajudou a moldar a história econômica de São Paulo e, mais de um século depois de sua expansão pelo Estado, continua presente na produção, na pesquisa e no consumo.
Atualmente, São Paulo produz entre 4,5 milhões e 6 milhões de sacas de café por ano, volume próximo ao próprio consumo estadual. Cerca de um quarto de toda a produção brasileira destinada ao mercado interno é consumida no Estado.
Mas a importância do café paulista vai além da quantidade produzida. A diversidade de solo, clima e altitude cria diferentes perfis de bebida, enquanto institutos de pesquisa desenvolvem novas cultivares, estudam cafés naturalmente descafeinados e preservam milhares de plantas utilizadas no melhoramento genético.
Café ajudou a impulsionar desenvolvimento do interior
A chegada da cultura cafeeira a São Paulo ocorreu no século XIX, inicialmente pelo Vale do Paraíba.
A produção avançou posteriormente para o interior e acompanhou a expansão das ferrovias, contribuindo para o desenvolvimento econômico de regiões como Alta Paulista, Alta Sorocabana e Noroeste Paulista.
Durante décadas, a cafeicultura esteve diretamente ligada à formação de cidades, à circulação de mercadorias e à expansão da infraestrutura paulista.
Esse legado ainda pode ser observado em diferentes regiões produtoras.
Diversidade de clima cria diferentes cafés
Um dos diferenciais da produção paulista está na variedade de ambientes encontrados dentro do Estado.
São Paulo reúne áreas de baixa altitude e temperaturas mais elevadas, como o oeste paulista, regiões de maior altitude, como Mantiqueira e Mogiana, e locais de clima quente e úmido, como o Vale do Ribeira.
Segundo o engenheiro agrônomo e pesquisador Fernando Nakayama, essa diversidade interfere diretamente nas características da bebida. “São Paulo é muito rico no cardápio de condições de solo e clima. Isso favorece uma diversidade de condições para o cultivo de café”, explica.
Essas diferenças formam os chamados terroirs, nos quais características geográficas e ambientais influenciam aroma, sabor e qualidade dos grãos.
Nova variedade pode levar até 50 anos para ser desenvolvida
A inovação na cafeicultura exige tempo.
O desenvolvimento de uma nova cultivar pode demandar entre 40 e 50 anos de pesquisa.
No Instituto Agronômico, o Programa de Melhoramento de Café acumula 94 anos de estudos e já resultou na criação de 68 cultivares.
Desse total, 66 são de café arábica e duas são porta-enxertos de café robusta.
Segundo os dados apresentados pelo instituto, os materiais desenvolvidos pelo programa estão presentes em aproximadamente 90% das plantações brasileiras de café arábica e em cerca de 70% dos cultivos mundiais dessa variedade.
Maior banco de germoplasma do país está em São Paulo
Outro patrimônio científico da cafeicultura paulista está no Banco de Germoplasma de Café mantido pelo Instituto Agronômico.
Criado na década de 1930, o acervo reúne 16 espécies e aproximadamente 20 mil plantas provenientes de diferentes regiões brasileiras e de outros países.
O banco permite preservar diversidade genética e identificar características que podem ser utilizadas em novas variedades.
Na prática, esse material funciona como uma espécie de biblioteca genética do café e pode ajudar pesquisadores a desenvolver plantas mais adaptadas a mudanças climáticas, doenças ou novas exigências do mercado.
Pesquisa busca café naturalmente sem cafeína
Entre os projetos conduzidos pelo Instituto Agronômico está o desenvolvimento de uma cultivar que naturalmente não produz cafeína.
A pesquisa surgiu a partir da identificação de uma mutação na própria planta.
Atualmente, o trabalho segue duas linhas: melhoramento convencional, já em fase de ensaios regionais, e edição gênica, ainda em estágio inicial.
O objetivo é produzir um café que dispense os processos industriais utilizados atualmente para retirar a cafeína dos grãos.
Caso a pesquisa avance até uma cultivar comercial, a inovação pode abrir novas possibilidades para produtores e para o mercado de cafés descafeinados.
Estado também amplia produção de robusta
Embora o café arábica tenha forte presença em São Paulo, o Estado também vem ampliando o cultivo de Coffea canephora, espécie que inclui os cafés robusta e conilon.
Segundo os pesquisadores, algumas regiões paulistas apresentam condições favoráveis para a produção de robustas de maior qualidade.
A combinação entre clima, altitude e técnicas de pós-colheita já permitiu alcançar cafés com pontuações superiores a 80 em avaliações sensoriais.
Arábica e robusta também apresentam características diferentes.
Enquanto o primeiro costuma ser valorizado pelo aroma e por atributos sensoriais, o robusta contribui para intensidade, sólidos solúveis e formação do creme em bebidas como espresso.
A combinação dos dois origina diferentes blends.
São Paulo possui sete Indicações Geográficas de café
O Estado possui sete Indicações Geográficas de café reconhecidas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial.
As certificações associam o produto ao território e consideram elementos como variedades cultivadas, manejo, clima e técnicas utilizadas depois da colheita.
Além de diferenciar os cafés, essas certificações podem agregar valor comercial e fortalecer a identidade das regiões produtoras.
Capital abriga cafezal com mais de 3 mil pés
A relação de São Paulo com o café também pode ser encontrada dentro da própria capital.
Na Vila Mariana, o Instituto Biológico mantém um cafezal com aproximadamente 10 mil metros quadrados e mais de 3 mil pés.
O espaço é utilizado em pesquisas, educação e atividades de divulgação relacionadas à cafeicultura.
A presença do cafezal em uma das maiores metrópoles do mundo mantém uma conexão direta entre a cidade e uma atividade que ajudou a impulsionar o desenvolvimento econômico paulista.
Produção chega a 6 milhões de sacas por ano
São Paulo mantém produção anual entre 4,5 milhões e 6 milhões de sacas.
Segundo o pesquisador Celso Vegro, o volume se aproxima do próprio consumo estadual.
Além de produtor, São Paulo também é um dos maiores mercados consumidores de café do país.
A combinação de produção, pesquisa, indústria e consumo ajuda a manter o Estado como um dos principais polos da cadeia cafeeira brasileira.
Tradição que também olha para o futuro
A história do café paulista costuma ser associada ao desenvolvimento econômico do século XIX e início do século XX, mas a atividade continua passando por transformações.
Pesquisa genética, novas cultivares, cafés especiais, Indicações Geográficas e estudos sobre descafeinação natural mostram que o setor também está ligado à inovação.
Mais do que parte da memória econômica de São Paulo, o café permanece como um produto capaz de conectar agricultura, ciência, indústria, consumo e geração de valor.



