Um sistema de monitoramento contínuo da atividade cerebral de recém-nascidos de alto risco tem contribuído para antecipar diagnósticos e reduzir o período de internação nas UTIs neonatais da rede municipal de São Paulo. Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, o protocolo está associado a uma redução de cerca de 54% no tempo de permanência desses pacientes nas unidades intensivas.
Implantada em sete hospitais municipais, a tecnologia permite acompanhar o funcionamento cerebral dos bebês em tempo real e identificar alterações neurológicas que podem passar despercebidas pela observação clínica, como crises epilépticas sem manifestações externas.
Desde o início do programa, em maio de 2023, até meados de setembro de 2026, 2.646 recém-nascidos foram acompanhados. O sistema acumulou mais de 175 mil horas de neuromonitorização cerebral contínua.
Entre os bebês monitorados, 12% apresentaram crises epilépticas, segundo dados da rede municipal.
Tecnologia identifica crises sem sinais visíveis
Uma das principais aplicações do protocolo está na identificação de alterações cerebrais que não necessariamente provocam movimentos ou outros sinais perceptíveis.
Isso significa que um recém-nascido aparentemente estável pode apresentar atividade convulsiva cerebral sem que a crise seja identificada apenas pela observação da equipe. “O monitoramento é capaz de evidenciar situações subclínicas como, por exemplo, as convulsões que são praticamente imperceptíveis nos recém-nascidos”, explica a coordenadora da Área Técnica de Saúde da Criança e do Adolescente da Secretaria Municipal da Saúde, Athenê Maria de Marco França Mauro.
Segundo ela, o diagnóstico e o tratamento precoces também podem contribuir para o desenvolvimento da criança.
Inteligência artificial auxilia análise do cérebro dos bebês
O sistema integra o modelo chamado UTI Neonatal Neurológica Digital, ou UTI Neon.
A estrutura conecta as unidades hospitalares a uma Central de Vigilância e Inteligência, responsável pelo acompanhamento contínuo dos dados produzidos durante a internação.
O eletroencefalograma contínuo é associado a ferramentas de análise automatizada por inteligência artificial, permitindo que especialistas acompanhem alterações na atividade cerebral e auxiliem as equipes responsáveis diretamente pelos pacientes.
A tecnologia não substitui a avaliação médica, mas acrescenta informações ao acompanhamento clínico e pode ajudar na definição ou no ajuste de tratamentos.
Prematuros estão entre principais pacientes monitorados
A neuromonitorização é utilizada principalmente em recém-nascidos com maior risco de alterações neurológicas.
Entre as principais indicações estão:
- suspeita de crise convulsiva: 20,3%;
- prematuridade inferior a 32 semanas ou peso abaixo de 1,5 quilo: 19,9%;
- instabilidade hemodinâmica: 12,1%;
- encefalopatia hipóxico-isquêmica moderada: 11,9%.
O acompanhamento também pode ser utilizado durante tratamentos específicos, como o resfriamento terapêutico empregado em determinados casos de falta de oxigenação no nascimento.
Nessas situações, a atividade cerebral pode ser acompanhada continuamente para identificar crises e avaliar a resposta ao tratamento.
Diagnóstico precoce fez diferença no atendimento de Mariana
A utilização do monitoramento também aparece em histórias como a de Mariana dos Santos Barbosa.
Ela nasceu em 20 de julho de 2024, no Hospital Municipal Tide Setúbal, após sofrer asfixia perinatal e apresentar uma convulsão.
Segundo o pai, Claudio dos Santos Barbosa, a bebê nasceu em estado crítico e precisou ser intubada ainda na sala de parto antes de seguir para a UTI neonatal. “A Mariana nasceu em estado crítico após uma asfixia perinatal e apresentou uma convulsão”, relembrou.
Ela permaneceu dez dias na UTI neonatal e mais um dia no berçário.
Dois anos depois, segundo Claudio, Mariana não utiliza medicação relacionada ao quadro enfrentado no nascimento. “Hoje, aos 2 anos, a Mariana é uma criança saudável, alegre, ativa e cheia de vida”, afirmou.
Mais de 175 mil horas de cérebro monitorado
A dimensão alcançada pelo programa também pode ser observada pelo volume de acompanhamento realizado.
Desde 2023:
2.646 recém-nascidos foram monitorados
mais de 175 mil horas de monitoramento foram realizadas
12% dos bebês monitorados apresentaram crises epilépticas
O modelo permite acompanhar não apenas o surgimento de alterações, mas também a evolução da atividade cerebral durante o tratamento.
Com isso, especialistas conseguem fornecer informações adicionais às equipes médicas sobre a resposta dos pacientes às terapias adotadas.
Tecnologia amplia capacidade de diagnóstico nas UTIs neonatais
A principal transformação proporcionada pelo modelo está na possibilidade de acompanhar continuamente um órgão que, até então, dependia de avaliações realizadas em momentos específicos.
Em recém-nascidos de alto risco, algumas horas podem ser determinantes para reconhecer uma alteração neurológica e iniciar uma intervenção.
Ao combinar eletroencefalograma contínuo, acompanhamento especializado e inteligência artificial, a rede municipal amplia a quantidade de informações disponíveis para a equipe assistencial.
O resultado relatado pela Secretaria — redução de aproximadamente 54% no período de internação — aponta para o potencial da tecnologia também na organização da assistência hospitalar.
Mais do que introduzir novos equipamentos nas UTIs, o modelo representa uma mudança na forma de acompanhar recém-nascidos de alto risco: o cérebro passa a ser monitorado continuamente durante um período em que a identificação precoce de alterações pode influenciar as decisões médicas e a evolução do tratamento.



