Segundo dados epidemiológicos consolidados, as Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) são um problema global, com a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimando que cerca de 600 milhões de pessoas

— quase uma em cada dez — adoeçam todos os anos após consumir alimentos contaminados. Esses números destacam a necessidade de reforçar práticas seguras de manipulação e armazenamento de alimentos em todos os ambientes, especialmente no lar.

No Brasil, entre 2014 e 2023, foram notificados 6.874 surtos de DTHA, resultando em 110.614 casos de doença e 121 óbitos. As principais bactérias identificadas nesses surtos foram Escherichia coli, Staphylococcus aureus e Salmonella. Dados mostram ainda que 34% desses surtos ocorreram em residências, quase o dobro do observado em restaurantes e padarias, evidenciando o papel fundamental dos hábitos domésticos na segurança dos alimentos.

A pesquisa, publicada na revista Food and Humanity (Elsevier) e aplicada a 5 mil pessoas em todo o país, analisou práticas como transporte de alimentos refrigerados, temperatura de armazenamento e higienização de produtos. Entre os principais achados estão:

  • 81% dos participantes não usam bolsas térmicas para transportar alimentos refrigerados ou congelados do mercado para casa;

  • 39,5% descongelam alimentos à temperatura ambiente;

  • 38% higienizam corretamente frutas e verduras;

  • 46,3% lavam carnes diretamente na pia;

  • 24% consomem carnes malcozidas e 17% ovos crus ou malcozidos.

Além disso, a pesquisa observou que a renda familiar influencia diretamente esses hábitos, com diferenças significativas entre faixas de renda que podem refletir desigualdades no acesso à informação e equipamentos adequados de higiene e refrigeração.

O Conselho Federal de Nutricionistas (CFN), órgão responsável por normatizar a atuação profissional de nutricionistas no Brasil, destaca que a segurança alimentar e nutricional — que inclui a inocuidade dos alimentos — é parte essencial da atuação dos profissionais da nutrição. O CFN afirma que o direito a uma alimentação adequada, segura e saudável é garantido pela Constituição e deve orientar políticas públicas e práticas individuais.

Nutricionistas atuam justamente para orientar famílias sobre boas práticas de manipulação e conservação de alimentos, além de enfatizar a importância de informação confiável para evitar riscos desnecessários à saúde. Em campanhas como a iniciativa “Nutrição é Ciência”, o Sistema Conselho Federal e Regionais de Nutrição reforça a necessidade de basear decisões alimentares em evidências científicas e não em mitos ou informações incorretas que circulam nas redes sociais.

Para a nutricionista clínica e consultora em segurança alimentar Dra. Mariana Costa, práticas inadequadas no ambiente doméstico elevam significativamente o risco de contaminação alimentar. “Além de seguir boas práticas de higiene na cozinha — como lavar corretamente frutas, verduras e utensílios — é fundamental manter a cadeia de frio durante o transporte e armazenamento dos alimentos para inibir a multiplicação de bactérias”, afirma.

Dra. Costa ressalta que a educação alimentar não é apenas sobre escolher alimentos saudáveis, mas também sobre garantir que eles cheguem à mesa sem riscos à saúde, o que inclui cuidados com temperatura, contaminação cruzada e manipulação segura.

Especialistas destacam que os resultados reforçam a necessidade de ações educativas contínuas e campanhas de comunicação claras para informar a população sobre os riscos das DTAs e as melhores práticas para evitá-las em casa. A falta de conhecimento técnico e de acesso à informação confiável está diretamente ligada às falhas de higiene na manipulação doméstica dos alimentos.

“Falhas significativas persistem nas práticas domésticas de segurança alimentar no Brasil, evidenciando a necessidade urgente de estratégias de educação alimentar, nutricional e sanitária para prevenir doenças transmitidas por alimentos”, conclui a professora Daniele Maffei, responsável pelo estudo.

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